Para começar com o pé direito, o Aonde Cultura buscar a palavra de Monique Evelle. Uma mulher negra da Bahia, mais precisamente saída do Nordeste de Amaralina, jornalista de formação, também empresária e um poço (ainda jovem) de conhecimento. Atualmente, Monique não mora em Salvador, mas carrega em si a luminosidade desta terra!

 

Aonde Cultura: Educar e formar socialmente jovens negros são coisas que precisamos pensar e executar porque não existem políticas públicas que nos representem?

Monique Evelle: Não temos políticas públicas que nos representem, porque não somos nós que estamos nos espaços decisórios de poder. As empresas já entenderam que representatividade vende, gera lucro, o povo consome. Representatividade na esfera política também não está funcionando. Eu fico preocupada com o discurso da representatividade. Me deixa com a sensação que isenta as pessoas da responsabilidade. É como se um único negro, uma única mulher, um único gay e afins tivesse que dá conta de tudo sozinho, por simplesmente representar uma coletividade. E se a gente não se tocar, o coletivo engole a gente. Por isso minha briga é em outra esfera. Se não for proporcional não me representa.

AC: A luta pela igualdade racial, de gênero e sexualidade tem crescido por ser fator determinante para a cultura contemporânea ou você acredita que o caminho foi inverso, a nova noção de cultura abriu espaço para o debate pelo combate às intolerâncias em seus diversos níveis?

ME: Realmente não sei. Talvez as pessoas estão tendo acesso à informação e discussão um pouco mais cedo. O que vejo são pessoas identificando as opressões e as desigualdades e reagindo com as habilidades que possuem e podem. Seja escrevendo nas redes sociais, seja através da fala em eventos, organizando coletivos e por aí vai.

 

AC: Em sua opinião, a compreensão dos Direitos Humanos é também uma questão cultural?

ME: Cultura é convenção humana, criação. E a compreensão dos direitos humanos também. A bagagem cultural e social de uma pessoa fará que ela interprete direitos humanos de uma determinada forma. Não é à toa que os militantes da área dos direitos humanos, são vistos, equivocadamente, como “defensores de bandidos”. Isto por conta do sucesso do autoritarismo brasileiro na ditadura militar. Ou seja, contextos históricos e convenções humanas nos trazem diversas interpretações sobre o que seriam direitos humanos. Infelizmente, a realidade brasileira nos mostra quem são as pessoas que tem seus direitos resguardados ou selecionados.

AC: Quais manifestações culturais você conhece, nascidas na periferia de Salvador, que hoje encontraram o espaço e o reconhecimento merecidos?

ME: Se reconhecimento é mídia e mobilização, temos o Acervo da Laje, Sarau da Onça, Biblioteca Zeferina, Nordesteusou e mais. Mas é importante lembrar que muitos projetos se desfazem por falta do apoio. Tanto de recursos humanos, quanto financeiros. Não é possível pagar boleto apenas com amor. Precisamos fazer com que essas manifestações culturais sejam sustentáveis a longo prazo.

AC: Para você, como a vivência cultural pode auxiliar no processo de construção intelectual e conduta ética de um indivíduo?

ME: Qualquer vivência e produção cultural permite, de certa forma, a descolonização do pensamento para produção de outras narrativas. Todo indivíduo produz cultura, informação, criação. E isso permite que a gente não corra o risco de um único olhar, uma única linguagem, uma única narrativa. Os saraus fazem isso, os bailes funks fazem isso, a cultura de favela faz isso. Ambos são processos de construção intelectual e conduta ética. Agora vai depender do seu lugar de fala para entender essas construções fazem sentido ou não.

AC: Atuar pela resistência foi uma escolha consciente ou o caminho era inevitável dentro do seu processo de amadurecimento pessoal?

ME: Os dois. Eu queria realizar o que realizo, mas os movimentos sociais, as pessoas que me acompanham e o racismo não me deixam descansar e ter uma vida social e saúde mental estável. Não preciso, não quero e não sei opinar sobre tudo. E essas demandas mostram que o caminho foi inevitável, mesmo eu querendo transitar e experimentar outras coisas. E existem diversas formas de atuar. E eu não uso só uma.
AC: Você sente como a sua posição hoje pode influenciar o que as meninas e mulheres negras irão exigir da sociedade? Você considera este o seu legado?

ME: Gênero e relações raciais são assuntos transversais da minha profissão, do exercício do meu trabalho e da minha condição de mulher negra. Ainda bem que hoje eu faço porque quero, porque gosto e também porque é meu trabalho. Influenciar alguém é consequência. Se essa consequência pode ser chamada de legado, eu não sei. Eu estou em exercício de descolonização do pensamento e apenas compartilho aquilo que tenho vivido e aprendido.

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